terça-feira, 10 de maio de 2011

Estorvo



Adaptação do romance de Chico Buarque. Estorvo = barulhos, inquietação, desejo de apalpar o próprio movimento. Segundo o protagonista: "Não estou entrando em lugar nenhum, mas saio muito de todos os outros" ou "Eu, por mim, levava no vapor o resto da existência"

Sinopse: uma noite mal dormida, um pesadelo existencialista. Personagens anônimos, um protagonista. A campainha insistente, o olho mágico e a visão de um desconhecido que lembra alguém. Perseguição. Estorvo = "Um homem sem compromisso com uma mala na mão está comprometido com o destino da mala"

domingo, 8 de maio de 2011

2º Filme do Ciclo Enlouquecendo

Ruy Guerra confessa - ele também se incomoda com Estorvo, o filme que adaptou do livro de Chico Buarque de Holanda. É um filme difícil, incômodo. O próprio Guerra concorda. Mas é um filme que precisava ser feito e ele se orgulha de ser o autor. Uma obra radical, que retoma a chama das mais importantes de sua carreira - um filme transgressor como Os Cafajestes, politicamente forte como Os Fuzis. Um filme jovem, arrojado e corajoso em sua proposta, feito por um homem de mais de 60 anos. Existe salvação para o cinema, fora das fronteiras de Hollywood.


Guerra confessa o que o atraiu no livro de Chico - "Foi o olhar sobre o mal-estar moral e político da sociedade contemporânea, essa malaise que se acentuou com a derrocada das ideologias, mas também foi a questão da linguagem; uma, aliás, não exclui a outra." Para expressar a malaise, Chico criou um livro perturbador. Desde o início, o leitor é amarrado na paranóia do narrador e o segue em seus deslocamentos cegos - a cidade não tem nome, ninguém tem nome, só o narrador tem acesso a pequenas verdades que não revela. É uma metáfora do Brasil (e do mundo) contemporâneo.


A malaise, a preocupação com a linguagem, tudo isso atraiu Guerra, mas ele pescou em Chico outras preocupações que lhe são próprias - a maneira de jogar com o tempo, o exercício de fragmentaçãocênica, como forma de traduzir essa realidade. Estorvo saiu, assim, como um filme que faz justiça ao título - é um estorvo, mas certamente oferece densidades e sutilezas, além de prazeres estéticos que se fazem cada vez mais raros. Um desses prazeres é descobrir o brilhante trabalho do diretor de fotografia Marcelo Durst. É uma das mais belas e elaboradas fotografias do cinema nos últimos anos. Os grandes nomes de Hollywood deviam tomar lições com esse jovem de 30 e poucos anos.



Tantos elogios à fotografia de Estorvo mexem com os brios do diretor e o levam a fazer uma retificação. "Falam no Marcelo como sangue novo, como se a concepção visual do filme fosse dele." Guerra assume o conceito fotográfico de Estorvo. Acha que isso não desmerece em nada o trabalho de Marcelo Durst, pois ele queria uma determinada coisa e contou com o gênio de seu jovem fotógrafo para torná-la viável na tela. Guerra queria uma fotografia em cores que se assemelhasse ao preto-e-branco - Durst proporcionou-lhe os meios técnicos de fazê-lo. De resto, o conceito é todo dele - movimentação e marcação da câmera, lentes. Guerra conta que os planos foram milimetricamente planejados por ele. Durst executou-os - com raro brilho. Merece totalmente o Kikito que o filme ganhou no Festival de Gramado(...)


É um filme radical - pela fragmentação da narrativa, pela dramaturgia (...) Estorvo passa um estranhamento, que é maior em razão da natureza do personagem. "Ele demora para se definir, há nele uma indiferença, um tanto faz; quando se define, deixa claro que o filme é débil como trama." Tudo isso incomoda, o próprio Guerra sente-se incomodado, mas o incômodo é essencial para transmitir uma certa reflexão (...) Ele acredita no filme que fez. Considera Estorvo um filme de rompimento, uma peça de resistência, por seu corpo a corpo com a linguagem e a realidade. É uma forma de prosseguir e levar adiante a experiência de Chico, seu parceiro em peças e músicas, pois no "Estorvo" de Chico o romance é o texto e o texto é o personagem, sendo o personagem (Perugorría, no filme) um marginal por sua falta de vínculos.

SERVIÇO
Cineclube Buraco do Getúlio
Dia 10 de maio, às 19h
Rua Getúlio Vargas, 51 - Centro - NI

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Sessão Dizem que Sou Louco

É no sábado dia 07 de maio que todo mundo poderá soltar o doido, maluco, desvairado ou louco que tem dentro de si e ir curtir a Sessão Dizem Que Sou Louco do BG!
Pra começar, curtas sobre os processos e artimanhas da loucura e intervenção poética com Tubarão. E depois festinha com os DJs Zeh Alsanne, DJ Jimy Lage, Rádio Rua e a Banda Clube Solitário do Éden, agora pra valer! Nos vemos lá, todos os malucos à solta!



 SERVIÇO
Cineclube Buraco do Getúlio
Dia 07 de maio, às 20h
Rua Getúlio Vargas, 51 - Centro - NI

segunda-feira, 2 de maio de 2011

1º Filme do Ciclo Enlouquecendo

O Louco é o vigésimo segundo Arcano maior do Tarot, ou, simplesmente, o número 0, conforme os baralhos. Esta carta representa um jovem leve e solto, que caminha a tocar flauta. À sua frente está um precipício. Tem uma trouxa às costas, há uma borboleta que voa por ali e um cão que lhe morde o calcanhar. Em O homem que virou suco, um poeta popular nordestino recém chegado a São Paulo é confundido com operário de uma multinacional que matou o patrão. Este poeta flutua sobre o precipício. Às suas costas a trouxa de imigrante. O limiar entre extremos. As palavras em cordel.



III. O Folheto de Cordel


O Homem Que Virou Suco
Folheto de Cordel - 1974
Autoria: João Batista de Andrade.

Eu vou contar pra vocês
Uma história diferente
Tão verdadeira e bonita
Que não há quem a invente
Tudo o que eu conto é verdade
Embora às vezes aumente
Um homem não vale nada
Fora de seu quintal
Sem amigos sem dinheiro
Em sua luta contra o mal
De todo jeito que tenta
Acaba em triste final
O demo toma mil formas
                                               Do mais gordo ao magricela
                                               Um some na sua porta
                                               E aparece na janela
                                               Um te salva da fogueira
                                               Outro joga na panela
                                               (...)