Para expurgarem a morte de amigo, quatro rapazes viajam para Ythaca, região metafórica que aponta tanto para o Cinema do Terceiro Mundo, entoado por Glauber Rocha em Vento do Leste, de Jean-Luc Godard (sequência que os diretores homenageiam), quanto para a redenção e a catarse do sofrimento e da ausência.
Filme coletivo, de realizadores jovens, Estrada para Ythaca imediatamente nos lembra de Conceição – Autor Bom É Autor Morto(também pela importância da roda de cerveja em ambos). Porém, se este era episódico, aquele é linear – na medida do possível, já que os diretores respeitam a premissa clássica do início-meio-fim, mas a preenchem com acontecimentos banais, desdramatizados, burlescos: os protagonistas (os próprios Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti) jogam conversa fora, acendem fogueira para esquentar água, urinam na beira da estrada, dormem ao relento, trocam o pneu do carro e… bebem. Muito.
Estrada para Ythaca prega o humor e a liberdade (a ponto de manter na edição cena em que um dos diretores tropeça na câmera – é o Cinema do Terceiro Mundo, afinal), assim como flerta com o fantástico e o maravilhoso, à maneira de Buñuel e de Jean Vigo (apenas uma nave espacial, evento fora do comum, é capaz de levá-los às portas de Ythaca). O filme, no entanto, também interage com outra tradição cinematográfica, bem distinta: a dos amigos (homens) que se reúnem e constatam a falência do mundo.
Dois exemplos vêm à mente: A Comilança, de Marco Ferreri, e Dias e Noites na Floresta, de Satyajit Ray, clássicos dos anos 70. Em A Comilança, quatro amigos de meia-idade viajam para castelo e, depois da mais triste orgia jamais filmada, comem até morrer, uma vez que a vida se tornou insuportável. Em Dias e Noites na Floresta, (outra vez) quatro colegas de trabalho saem de férias e se relacionam com os vizinhos ricos e a imensa população local que vive na pobreza. Para Ray, em jogo, a crise ética e moral da sociedade bengali, em decorrência do ultrapassado sistema de castas e do avanço do capitalismo.
Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti, para se restabelecerem da morte do amigo, buscam Ythaca, lugar mítico, ideal (como os amigos de A Comilança descarregam na comida suas frustrações). Mas não precisariam, se a realidade funcionasse a contento: o mal-estar do mundo se apresenta, em Estrada para Ythaca, indiretamente, pois não há soluções por perto – apenas ao longe, em terras distantes.
Sabe àqueles documentários que você vê tem vontade de ter trabalhado nele? Estrada Real da Cachaça é um desses. Além de cruzar com personagens interessantes e de coletar belíssimas imagens do caminho, o documentário tem como protagonista a cachaça e todo seu poder destilador. Básico. Imperdível. Genuíno. Melhor doc do Festival do Rio 2008 e 23° Festival Internacional de Cine de Mar Del Plata.
O que você vai encontrar:
"A estrada é cheia de espíritos caprichosos"
"A cachaça é companheira"
"Cachaça, peço por favor que não me aborreça. Cê desse pra barriga, mas não me suba pra cabeça"
"Cachaça não tem memória, por isso vamos beber!"
SERVIÇO Cineclube Buraco do Getúlio Dia 12 de julho, às 19h Rua Getúlio Vargas, 51 - Centro - NI
Os road movies sempre fizeram parte de nós. Eles têm como cenário principal a estrada e seus personagens normalmente estão em busca de liberdade. Essa vontade humana incontrolável sobre o indefinido, o longe, os mares nunca antes navegados. A ansiedade pra se chegar ao destino.
O Cineclube Buraco do Getúlio carinhosamente escolheu os filmes Pé na Estrada mais bombados da cinematografia brasileira, começando pelo clássico Bye Bye Brazil (de Cacá Diegues), onde artistas ambulantes cruzam o país em uma caravana fazendo espetáculos para o público que não tem acesso à televisão.
Logo em seguida, teremos bate papo com o cineclubista, pesquisador e coordenador da Rede Cine Mais Cultura, Rodrigo Bouillet, nosso caixeiro-viajante do mês.
Avante, viajante! Pra pedir carona nessa vibe é só aparecer.
SERVIÇO Cineclube Buraco do Getúlio Dia 05 de julho, às 19h Rua Getúlio Vargas, 51 - Centro - NI