quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Pindorama - A Verdadeira História dos 7 Anões

Em Pindorama, Roberto Berliner volta a desafiar nossos pré-conceitos politicamente corretos em relação a portadores de deficiência. Diante do diferente, tendemos a adotar um discurso de proteção e respeito, quando não de falsa naturalidade. Com as ceguinhas de Campina Grande, Berliner recusou-se a qualquer forma de compaixão disfarçada. Embarcou no lúdico da proposta tanto quanto as próprias personagens - e não escamoteou as conseqüências. Com os anões do Circo Pindorama (veja post anterior sobre a versão média-metragem), ele não chegou a desenvolver uma relação íntima. O filme, na verdade, é uma grande apresentação de personagens, mas com o frescor de uma abordagem isenta e livre. Enquanto conhecemos essa grande família, vamos percebendo a estrutura de poder no empreendimento, o apelo sexual dos "pequenos", o efeito da reputação artística sobre o ego de cada um. A maior parte das piadas dos anões - dentro e fora do picadeiro - é com a sua própria condição física. Eles satirizam a si mesmos e têm um imenso prazer em exibir suas qualidades. Berliner se faz cúmplice deles. Coloca a câmera a serviço da verve deles. O aparato cinematográfico (fotografia, edição, músicas de Lula Queiroga) é usado para potencializar a fluência e a hiperatividade deles. Pindorama é para gente tão desencanada quanto os sete anões. Fellini no sertão, equilíbrio e graça sem culpas nem exploração.


SERVIÇO 
Cineclube Buraco do Getúlio
Dia 16 de agosto, às 19h
Rua Getúlio Vargas, 51 - Centro - NI

domingo, 7 de agosto de 2011

Do Luto à Luta

Para Evaldo Mocarzel, o documentário é uma questão pessoal. Impossível não se envolver. Em Do Luto à Luta, ele parte da sua experiência familiar (ele é pai de Joana Mocarzel, a Clara da novela Páginas da Vida) para enfocar a inserção social e cultural dos portadores da Síndrome de Down. O filme é corajoso e comovente, para muitos o seu melhor. E tem uma qualidade incomum: o viés pessoal não se sobrepõe ao enfoque objetivo do tema, mas o informa e autoriza. Assim, Mocarzel equaciona melhor do que nunca sua participação dentro do filme. Em À Margem da Imagem, essa participação se revestia de um caráter intelectual: ele questionava a apropriação (inclusive por ele mesmo) da imagem dos moradores de rua. Mensageiras da Luz implicava na argumentação do tema o nascimento do próprio filho do diretor e do próprio filme, num esforço poético apenas parcialmente resolvido.

O premiado Do Luto à Luta está na fronteira entre a investigação e o utilitarismo social. O título em si exprime a passagem do sentimento de perda para a postura de afirmação da vida, que nem todos os pais de crianças com Down conseguem fazer. Mocarzel fez. E procurou seus pares para falar sobre isso. É um filme de família, em muitos sentidos. Reunidos diante da câmera, pais e filhos relatam histórias de rejeição, superação e amor incondicional. O drama que às vezes se passa dentro do quadro seria inapreensível por qualquer filme de ficção.

Sempre disposto a um exercício de metalinguagem documental, a certa altura o diretor entrega seus meios de produção a um jovem casal portador de Down para que eles roteirizem, filmem e editem um pequeno filme-dentro-do-filme. Essa iniciativa, além de curiosa e produtiva, sublinha o desejo do cineasta de contestar o poder da autoria e entrar na região bem mais complexa da auto-imagem. Mocarzel não se contenta em fazer documentários. Quer investigar em profundidade esse estranho ofício de revelar o outro.

retirado de criticos.com.br

SERVIÇO 
Cineclube Buraco do Getúlio
Dia 09 de agosto, às 19h
Rua Getúlio Vargas, 51 - Centro - NI

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O que é Ser Especial pra você?


Muitos dizem que as pessoas são especiais pelo que elas são, pelas atitudes, decisões e sentimentos. Pelo agir naturalmente sem se esconder atrás de nada. O Cineclube Buraco do Getúlio traz no mês de agosto filmes que nos tocam de forma diferente, pela verdade de um mundo que muitas vezes é discriminado por não se saber nada sobre ele. A sessão de sábado desse mês explora o universo de O Resto é Silêncio, de Paulo Halm; Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro e Aloha - Surf Adaptado, de Paula Maia dos Santos.

Além da clássica vibração do DJ Zeh Alsanne, a intervenção teatral dos Cretinos Iluminados e o som irado da Banda Mazé. Mais que especial, não?



segunda-feira, 1 de agosto de 2011

1º Filme do Ciclo Especial


Crime Delicado, como os demais filmes de Beto Brant, parte de um ato de violência. Mas, se nos longas anteriores a violência era um ato presente, uma afirmação que exigia respostas dos personagens, em Crime Delicado a violência se transforma em interrogação – e o motor do filme não é mais a ação dos personagens, mas suas dúvidas.

O crítico de teatro Antonio Martins é um homem pleno de certezas. Domina com desenvoltura seu métier, sabe utilizar a ironia e o sarcasmo. Mas suas certezas (e sua empáfia) caem por terra depois de um encontro casual com Inês, mulher muito bonita, com uma deficiência física: falta-lhe uma perna. A dúvida se instaura. Martins também se descobre incompleto: falta-lhe aquela mulher. Ele a persegue. Surgem incômodos, no personagem e no público (...)

 O cinema de Brant (apesar de todas as limitações dessa classificação) aproxima-se a uma tendência realista, o que nos leva a pensar no estatuto de verdade das imagens do cinema contemporâneo. Brant usa longos planos-seqüência, buscando um mundo que se manifesta por si. No improviso dos atores nas cenas do bar, Brant busca a espontaneidade, mas também o acaso. De tão raros, os cortes se tornam mais “explícitos”. A montagem, essa grande violência do cinema com as imagens capturadas pela câmera, esse procedimento que Bazin “interditou” em seus textos. A montagem em Crime Delicado, como os faux raccords do início da carreira de Godard, serve para explicitar a “violência” da construção cinematográfica.

Tudo em Crime Delicado gira em torno dessa “violência”: a violência da representação e as dúvidas que surgem daí.  (...) As certezas que se esfacelam frente ao mundo não são apenas as do personagem principal, mas toda uma idéia de fazer cinema. (...)

Crime Delicado é cinema que não se quer “completo”, mas que busca a lacuna que levará o espectador a perseguir suas próprias respostas e encarar suas próprias falhas. É a frase do ator Adriano Stuart que resume a beleza do filme: “Eu errei”. Não há, no cinema brasileiro recente, “erro” mais necessário e esclarecedor que este Crime Delicado.