segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Saneamento Básico


Jean-Claude Bernardet, um dos mais importantes críticos de cinema do Brasil, diz que a metalinguagem é uma "doença juvenil". Em certo ponto, concordemos - fazer um filme para falar do processo de fazer filmes é, no mínimo, um egocentrismo. Charlie Kaufman está aí e não nos deixa mentir.
Mas há casos como o de Jorge Furtado, curta-metragista gaúcho que estreou em longas em 2002 com Houve uma vez dois verões. (A comédia romântica dialoga com o cinema já no título, referência ao clássico de 1971 deRobert Mulligan.) A metalinguagem se intensificou nos dois longas mais recentes de Furtado, Meu tio matou um cara e O homem que copiava, que de certo modo já tratavam da arte de contar histórias, xerocopiando referências, remontando cenas de memória e investindo no hipertexto.

Saneamento Básico - O Filme (2007), que antes de mais nada já consolida o nome do diretor gaúcho como o melhor autor de humor no cinema nacional recente, não é um caso isolado, portanto. O longa recorre abertamente à fórmula do filme-dentro-de-filme, mas isso não vem de agora. Se Furtado tem a "doença juvenil", a seu caso não há remédio. A sua metalinguagem é um traço congênito, não uma caxumba.
Riqueza incalculável
A narração em off de Fernanda Torres antes do filme começar já é metalinguística: ela convida todos a se sentarem, acomodarem-se. Depois pergunta se compensa esperar aquele cara atrasado ou se podemos dar início logo à sessão... Surge a primeira imagem e descobrimos - veja só - que Fernanda não estava falando conosco, mas com outros personagens. Quer dizer, estava falando conosco, sim, disfarçadamente, porque é desse jogo duplo que depende Furtado.
A personagem, Marina, organizava uma reunião com outros moradores de uma vila na serra gaúcha, que tenta há anos construir uma fossa que elimine o esgoto a céu aberto. Eles chegam à conclusão de que a obra continua cara demais, e recorrem à prefeitura. Como saneamento básico não é a prioridade do governo local, a única verba disponível é o dinheiro que Brasília oferece em um concurso de curtas-metragens a novos realizadores. A família de Marina e Joaquim (Wagner Moura) precisa, então, produzir um filmete. E, daí, usar o dinheiro federal para pagar a fossa.
E lá vão eles emprestar câmera, costurar fantasia, arrumar figurante... Só o processo que os leva à escolha, como tema, de uma ficção científica com monstro, já é absurdamente hilário. Curiosidade (para depois do filme): "quimera", no dicionário, também quer dizer "utopia".
No meio de tudo, o diretor tece seus comentários sobre o financiamento público da cultura. Furtado assume, por meio do filme, que há distorções no sistema. Seus personagens questionam a todo momento: como o governo pode dar dinheiro para o cinema se as pessoas mal têm esgoto? Com o desenrolar de Saneamento Básico - O Filme, porém, os personagens-cineastas percebem o valor do que estão criando. Não é algo tangível, que dê pra colocar numa prestação de contas, mas um valor simbólico, emocional. E é dessa riqueza incalculável que o bom cinema é feito.
Quanto ao lado umbiguista da metalinguagem, Bernardet não deixa de estar certo. Furtado se auto-elogia por meio de seu alter-ego, o malandro Zico (Lázaro Ramos), o sujeito que bota ordem e injeta sangue no set mambembe de Marina e Joaquim. Lázaro é sempre ótimo, mas nos filmes de Furtado ele se supera. Por essa e outras, a massagem de ego do gaúcho dá até pra perdoar. Competente criador, ele tem o direito de se exibir.
retirado daqui

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